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Um Ano de Vendendo Peixe

 

Comemorando exatamente um ano do Vendendo Peixe, inserimos este post para lembrar. Aproveitamos para dizer que temos muita vontade de fazer algo parecido novamente – em algum lugar com as mesmas características que o terceiro andar do Mercado Novo possuía até então.

Só esperar A Zica sair…

 


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Queremos Mais Mercado

Mercado Novo pós Vendendo Peixe

Conversas aqui e ali, tenho ouvido o que têm a dizer os participantes do Vendendo Peixe. A opinião geral, muito positiva, pede mais. E nós também. No espaço permanecem os stickers e os graffitis, e nas vezes que voltei ao Mercado Novo senti um lugar vivo que também pede mais. Nunca deixo de percorrer todos os corredores e olhar tudo de novo. E aquele pensamento volta de novo também, que aquele lugar é ideal para ser um espaço de produção artística, de troca de objetos e de ideias, um espaço de criatividade e intervenção, não excludente, desinstitucionalizado e  autônomo.

Como conseguir isso é o nosso novo desafio e não será tarefa fácil. Mas é grande o desejo de todos de tirar aquele terceiro piso de um futuro incerto onde se avistam horrores como parques de estacionamento, shoppings e outras perversões do “progresso”. Aliás pode-se sentir a incerteza do futuro daquela região, bem perto do Mercado Novo, na praça 1 de Maio, nas palavras de uma feirante do mercadinho do comboio do trabalhador do Sacolão ABC, que está prestes a ser erradicado pela prefeitura. O poder público achou mais importante fazer uma praça, tudo uma questão de “enobrecimento” da região, palavrinha derivada de nobre e nobreza, o eterno inimigo do povo, como sabem os feirantes que ainda não têm para onde ir, e os clientes que por lá compram porque é muito mais barato.

Assiste-se a uma modificação acelerada da cidade um pouco por todo o lado. O processo é assimilado pela população como necessário para a realização da Copa 2014. Assim, comunidades inteiras são despejadas, regula-se e limita-se o uso do espaço público e aumenta-se a estrutura rodoviária favorecendo o transporte privado e poluente. São políticas públicas pensadas por cabeças menos criativas do que participaram do Vendendo Peixe, e enquadradas nas exigências dos senhores da FIFA. Dá medo pensar o que mais eles preparam para o centro de BH. Salve-se nesta cidade quem e o que se puder!

Queremos fazer no Mercado Novo uma alternativa a esse conceito de progresso supostamente enobrecido. Temos na pauta o próximo Vendendo Peixe obviamente, e também atividades paralelas relativas ao funcionamento de um espaço alternativo para realização de trocarias e permutarias no local. Além da possibilidade de um outro grande evento no próximo ano. Assim, pensamos noutras formas de ir ocupando o Mercado Novo enquanto resolvemos problemas de infra-estrutura no terceiro piso, exigências legais para que fiquemos protegidos na realização de nossos eventos.

O primeiro passo é pôr mãos à obra e iniciar a reforma do banheiro. Temos o apoio do superintendente do mercado, que ofereceu a mão de obra. O material não é muito, mas é caro. Felizmente somos muitas cabeças para pensar formas de angariar fundos: mais eventos, zines, doações. E por cabeças entendemos as nossas e as de vocês, que participaram e como nós se apaixonaram com o lugar. Aceitamos sugestões e ajuda! Colaborando a gente pode conquistar o espaço. Fica aqui o convite a todos.

por Manu Tenreiro

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Vendendo Peixe – Repercussão

Pessoal, aos poucos iremos colocar fotos e vídeos do que rolou no Vendendo Peixe aqui. Por enquanto, fiquem com os vídeos produzidos antes e durante o evento que já recebemos.

Reportagem exibida na última quarta-feira no programa Agenda, da Rede Minas:

Sexta-feira, 17 de setembro de 2010, Mercado Novo um dia antes do Vendendo Peixe, por Gustavo Amaral:

“A proposta era reunir pessoas dispostas a produzir e/ou apreciar arte com total liberdade de produção. Mais detalhes você confere no vídeo a seguir”, feito pelo pessoal do site Binóculo:

Binóculo 03 – Vendendo Peixe from Binóculo on Vimeo.

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Agradecimento sem título

Enfim, o peixe foi pescado. Depois de alguns meses com uma equipe cheia de vontade planejando a venda de algo imaterial num lugar esmo, o lucro foi enorme – e nada financeiro. Nisso, o mais importante foi que algo mudou o terceiro andar do Mercado Novo. Não que estivéssemos querendo fazer um evento simplesmente baladeiro, com as 300 pessoas mais legais de Belo Horizonte. Mas que deixasse sua presença marcada em quem esteve presente  pela pancada – e a proposta era ser uma experiência nova que com todos os seus percalços, acabou se realizando muito bem.

O tipo de convocatória utilizado num evento como Vacas Magras teve sua amplificação potencializada de modo profundo – e dessa vez, ao mesmo tempo que acabou dando muito certo, o vandalismo gratuito também apresentou que pode  atrapalhar. De toda forma, sem querer ser tilelê, dava pra sentir uma vibração diferente no ar. Quem estava na produção não teve tempo pra ver o que rolava de perto, a todo momento alguma coisinha pra resolver e tudo foi improvisando até dar certo.

De longe, muita tinta e sons dos mais diversos escorriam por um espaço monumental. Gente ia chegando até dar uma sensação que não estava vazio – o que não é fácil por ali. O cinema, com sua programação múltipla sobre cidade e intervenção urbana não chegou a lotar, mas foi uma área lounge pra botar a cabeça pra pensar e descansar o corpo numa área de ação.

A cerveja terminou algumas vezes, até se esgotar totalmente. Quem queria se embebedar, só por um trago de Pratiana, que salvou muita gente. Havia certa apreensão do vandalismo chegar aos azulejos, o que quase aconteceu, mas a intenção de levar gente que não costuma ir ao Mercado Novo ao terceiro andar foi plenamente preenchida.

Mesmo com pequenas zicas pelo caminho, foi uma das tardes mais sensacionais que vi num evento, onde rolou diálogo, interação e criatividade plural, nem que fosse de gosto duvidoso, tudo combinou. Pena ter ocorrido como foi quanto à delibaração do condomínio limitando o horário de adentrar ao prédio apenas até as 16 horas. Muito triste ver aquelas pessoas que foram até lá  e ficaram de fora, pois nem tudo foram flores.  Mas digo, por favor retornem ao terceiro andar do Mercado Novo para pegar uma sensação boa do que aconteceu naquela tarde. Eu vou.

Câmbio, desligo.

por João Perdigão

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Quase meio século de Mercado Novo

É uma história apagada a do Mercado Novo. Sempre que pergunto a alguém: “conhece?” , respondem “Mercado Central?”. “Não… Mercado NO-VO… No fundinho da Olegário Maciel, atrás do Central, pertinho da praça Raul Soares!”. Muitos chegam a referí-lo como o velho, pelo fato de seus andares superiores serem ruínas – mas na verdade, eles são inacabados. Mas quem conhece, adora!

Daí, fiz uma busca na web. Tudo vago. Pega-se num dado aqui, busca-se por aí. Outro dadozito sem muita relevância. Tarefa dificil esta de ganhar uma pauta sobre a história do Mercado.

Num link encontro que o Mercado foi inaugurado em 1963. Começaram a construção antes, mas foi no “reinado” do prefeito Carone que ficou semi-pronto esse local pseudo-obscuro de Belo Horizonte. Prefeito Carone esse que dois anos depois, em 1965, ou 1) foi impedido de executar seu cargo dada a depredação das contas do município; ou, 2) foi cassado pela ditadura e então suponho que fosse até um sujeito bacana dado o contexto político da época.

Fui então conversar com o síndico do local, o sr. Antônio Gabriel Castro Filho, vulgo Gringo, que possibilitou a realização do Vendendo Peixe no Mercado Novo e que já tem 30 anos de casa. Simpático, articulou o seu apoio a iniciativas como o Vendendo Peixe, Kaza Vazia e Loja Grátis. E falou da sua intenção para o terceiro andar do Mercado, como um lugar voltado para o artesanato, as artes e mais comércio em vez de indústria.

Mas voltando pra perguntar do passado, sabe-se pouco. Antes do prédio ser construído, ali era o terminal dos bondes que noutra época atravessavam a cidade, mas que nos anos 60 entraram em declínio. Depois o lugar ficou ao deus-dará uns dez anos, porque a Construtora Sobrado, que fez o Mercado, faliu, nunca terminou o nosso bem-amado terceiro andar, e foi a prefeitura que licitou as lojas que permitiram ao local funcionar de alguma forma. Instalaram-se pequenos negócios, principalmente de atividade industrial, mas não só. E o terceiro piso lá foi ficando para a prefeitura seguinte cuidar – e ainda hoje parece que vai ficar pra seguinte, até chegar às vésperas da Copa do Mundo de 2014 e a região ‘enobrecer’ pra virar mais um comércio pasteurizado do tipo shopping.

O barbeiro sr. Domingos,  é o lojista mais antigo do Mercado. Trabalha no final do corredor ‘S’ do primeiro piso e está no Mercado Novo desde 1969. Uma vida sem grandes sobressaltos. Ali, segundo ele, nunca aconteceu nada. Só um incêndio há uns 4 anos e uma época que tava meio perigoso, pois havia muitos vagabundos pelo mercado.

Assim, a história do Mercado Novo permanece um mistério. E depois de passear um pouco pelos corredores, conversa aqui, conversa ali, acabei de novo no terceiro andar, vazio e inacabado. Sem valor no mercado imobiliário, por enquanto. Mas sem preço para nós, para quem ele é acolhedor e repleto de possibilidades. Um lugar solitário mas pedindo companhia. E cheio de vontade de brincar.

Vamos lá no sábado fazer história?

Manu Tenreiro

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Kaza Vazia – MerKado Cheio!

Foto: Nairza Santana

Imagine uma galeria de arte. Agora imagine uma galeria de arte que perambula pela cidade. Uma galeria de arte itinerante, nômade, inquieta e rebelde. Foge da norma, do museu, da galeria tradicional. Esconde-se e revela-se nos lugares mais inusitados da cidade, sempre buscando uma Kaza Vazia. É isso mesmo, Kaza Vazia – uma galeria de arte itinerante, que desde 2005 se manifesta no espaço urbano, reinventando a curadoria artística tradicional.

O Mercado Novo já abrigou a Kaza Vazia. Em 2008, na sua sétima edição, durante o Verão Arte Contemporânea, o Kaza Vazia encheu o Mercado Novo atuando no terceiro piso, justamente onde o Vendendo Peixe terá lugar. A ação, que também ocorreu no Parque Municipal, foi a primeira que o grupo realizou fora da sua usual ocupação de estruturas abandonadas.

Enfim, um evento que deixou água na boca e vontade de voltar, de ocupar aquele mercado gigante, sólido e acolhedor, e aos poucos ir deixando um rastro de permanência seguir na galeria itinerante. Um desejo ainda bem vivo para uma Kaza Vazia sempre pensando em projetos no Mercado Novo, e que não perde a oportunidade de ali se juntar aos amigos numa tarde de sábado para um evento de arte em ação.

O peixe da Kaza Vazia, a gente compra a ideia!

Manu Tenreiro

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Ganhei Vida Onde Não Tem Preço

Quando ajudei a organizar o Kréu Krio no Mercado Novo em 2008, durante uma semana, frequentei o terceiro andar do prédio, onde pude experienciar a efervescência de um espaço que os frequentadores de shopping center nem imaginam que poderia haver em Belo Horizonte – a Loja Grátis.

Foi muito rico quando eu, que estava ali no intuito de poder trocar idéia sobre movimentos alternativos e explicar o que era nossa proposta com o Kréu Krio, passei boa parte do tempo explicando do que se tratava para quem passava por ali e convidando para conhecer nossa exposição ou até mesmo a tal Loja Grátis – que foi a experiência mais bacana de algo que já acontecia por lá e que pude absorver para vida.

Relatava a quem chegava lá, curioso da proposta da loja que não vendia nada, que qualquer um poderia pegar qualquer coisa (no máximo três peças) e que não necessariamente era obrigado a deixar alguma coisa lá naquele momento. Cada um tinha uma reação, uns ficavam com receio, outros pediam para levar mais do que três coisas e todo mundo que levava algo, saía de lá prometendo que iria deixar umas coisas velhas lá outro dia – e não que eu estivesse cobrando isto, era apenas uma explicação.

Os trabalhadores daquele andar – em especial o seu Hildeu, que conserta lâmpadas fluorescentes, na foto acima levando uma jaqueta jeans pra esquentar – e habitués do local, sempre que podiam, passavam por ali e levavam coisas para si próprios ou seus familiares. E traziam desde discos de vinil até sucata tecnológica – passando por roupas, livros, filmes VHS e até mesmo pílula do dia seguinte.

Organizada pelo pessoal que veio do Domingo Nove e Meia e do Gato Negro a Loja Grátis foi, segundo um de seus participantes, Renato Correa, “um prolongamento do D9M, pois lá tinha a Feira Grátis durante o evento e sempre sobravam coisas. A recomendação era que quem trouxesse, levasse de volta o que sobrou, mas mesmo assim sobrava. A partir daí, pensamos que seria legal ter um espaço fixo pra isso, e já pretendíamos ter um espaço físico pra dar suporte e servir de referência pras coisas que fazíamos. Não só loja ou feira grátis, mas eventos, oficinas, biblioteca, espaço de convergências e tal. Inspirados pela loja gratis da Alemanha, pegamos a loja no Mercado Novo assim que soubemos dos espaços vazios lá através do Kasa Vazia. E a proposta do D9M era ocupar a cidade, então, a Loja Grátis ia ser um desafio novo por ser um formato diferente e mais intenso do que ocupar um viaduto no fim de semana.” A Loja Grátis deixou de existir pela falta de frequentadores, mantenedores e doadores que pudessem estimular a circulação de gente e produtos.

Conversando com a empolgada participante do Kaza Vazia e do Vacas Magras, a artista plástica Júnia May, tive o relato de uma ação denominada Trocaria & Permutaria, que ela promoveu durante o Kaza Vazia no Mercado Novo no início de 2008, antes mesmo da existência Loja Grátis. Tive sensação de que mesmo indiretamente, essa Trocaria & Permutaria pudesse ter influenciado o que aconteceria lá poucos meses depois. Num local relativamente abandonado pela ação do tempo e do pós-capitalismo, para Júnia e o pessoal anarquista, foi natural criar um espaço com esse caráter na mesma época. E essa não é a primeira tentativa de re-ativar o local, pois aconteceu ali um evento em prol da Loja Grátis em maio de 2009, que infelizmente não vingou, apesar de ter sido bem bacana.

Trocaria & Permutaria + Loja Grátis, juntas

Pedi a May que me enviasse um texto que explicasse o que era isso. Ela me enviou e considerei o texto bem relevante:

Na prática, é uma feira de trocas aberta a todos que desejam intercambiar objetos, serviços, conhecimento, arte, enfim, a todo tipo de intercâmbio que substitui o dinheiro, permitindo, ao cidadão comum, acesso a uma grande variedade de produtos e serviços. Promovendo a circulação de valores, ao invés de papel moeda, a TROCARIA & PERMUTARIA incita a substituição da acumulação e do lucro por solidariedade e cooperação, por meio da valorização do trabalho, do saber e da criatividade humana em detrimento do capital e sua propriedade. É prática de adaptação a nova consciência econômica que ganha terreno: a economia ética ou Ethonomia.

E segundo Çtalker, “trocaria é um tempo futuro do pretérito, comércio hermético e hermenêutico sem espaço para plutocracia. Hermético por levar os trocantes a compreender o sentido do valor e de seus valores, quando eles são confrontados com os dos outros. Hermético porque cada troca surge da singularidade de seu próprio sentido, na frágil e fugaz equivalência entre diferenças. Futuro porque projeta uma economia sem fetiches de abstração de tempo de vida. Pretérito porque redime todas as economias tradicionais arrasadas pela violência do ocidente. A Trocaria & Permutaria é experiência vivida sem troco.”

Daí, como no próprio site da Loja Grátis, diz:

Devido a vários fatores de organização, envolvimento, tempo e estrutura, @s envolvid@s e interessad@s decidimos fechar o Espaço de Convivencia Loja Grátis de Belo Horizonte. Já a algum tempo, ele tem tido muito pouco movimento, poucas propostas e projetos no espaço e, tambem por vários fatores, pouco envolvimento de pessoas.”

Então, ‘bora manter no Mercado Novo um lugar irradiando boas experiências? Nem que seja por uma tarde… Leve sua roupa velha, que pra maioria ainda é utilizável, um videogame que ninguém mais joga, a coleção de fitas cassette do seu velho, e volte com algo que você precisa e nem sabia, nem que seja ver isto acontecendo.

por João Perdigão

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Kréu Krio: improvisando na cidade

Era agosto de 2008 e a arte de rua em BH borbulhava. Além de vários grafiteiros das mais diversas regiões da cidade espalhando seus trabalhos pelos muros, havia ainda muito espaço nas ruas ocupados por lambes e stickers eróticos, políticos, líricos ou propositalmente toscos. Era um grupo enorme de pessoas que, em sintonia, estavam se propondo a experimentar a cidade para além da rotina burocrática do dia-a-dia: segunda, terça, quarta, ônibus, carro, metrô, trabalho, casa, escola, buteco no fim de semana. Com o propósito de “sair pra grafitar” ou “sair pra colar”, de noite ou de dia, sozinhas ou em grupo, essas pessoas estavam vivendo uma cidade que existe e não é enxergada ou até inventando uma nova cidade.

Naquele mês de agosto, estreou a 1ª Bienal Internacional de Graffiti de Belo Horizonte (BIG) – uma iniciativa ambiciosa e inédita, resultado natural do que já vinha acontecendo espontaneamente pelas ruas. Talvez um pouco caótica, talvez um pouco ingênua e deslumbrada, porém uma iniciativa corajosa. Mas ainda não era só isso. Ainda tinha espaço pra mais coisa acontecer.

Foi então que, na esteira da BIG e das Vacas Magras (quando, por duas vezes, um monte de malucos saiu carnavalescamente pelas ruas carregando vacas magricelas feitas de papel machê, material reciclado e todo tipo de quinquilharia), três amigos tiveram a ideia de aproveitar a oportunidade daquele momento pra criar um espaço/momento de vivência e de criação totalmente independente, autônomo e efêmero.  O objetivo era simplesmente reunir pessoas que estivessem a fim de criar juntas durante uma tarde de sábado. E funcionaria como uma espécie de mostra paralela à BIG.

O local escolhido foi o 3º andar do Mercado Novo: um espaço enorme, vazio e incrivelmente bonito, com suas centenas de lojas abandonadas que formam um labirinto de muros, escadas e portas. Tudo pedindo para alguma coisa acontecer. Havia ali apenas algumas lojas de serralheiros que nos ajudaram com os pontos de energia elétrica e havia também a Loja Grátis, um espaço anarquista de trocas e escambo que de cara se tornou um parceiro forte.

Foi tudo muito improvisado. Ninguém com muita experiência em produção de eventos. Aliás, a experiência era nenhuma. Ligamos para nossos conhecidos e convidamos também todos que encontramos por aí. Pedimos ajuda pra todo mundo que pudesse colaborar de alguma forma: alguém que pudesse emprestar equipamentos de som, alguém que pudesse emprestar um projetor de vídeo, e assim fomos conseguindo uma infraestrutura básica. Um amigo punk marceneiro tinha vários cavaletes de propaganda política encostados e topou doar para o nosso evento: assim tínhamos telas para pintar. E as tintas? Como coladores de lambe, estávamos participando da BIG e ganhamos vários sprays que não usamos para o nosso trabalho exposto lá.  Além disso, os grafiteiros que participaram levaram seus próprios sprays.

Daí, só precisávamos de um nome para o evento. Talvez essa tenha sido a parte mais difícil. Como ninguém chegava num consenso, decidimos por um nome dadá, sem sentido algum: Kréu Krio.

E assim, devidamente entitulados e encaminhados, chegamos ao dia da Kréu Krio. Montamos tudo e as pessoas começaram a aparecer. Tinha rapper, grafiteiro, punk, criança, tiozinho, fotógrafo. Todo mundo ali, junto e misturado. Os cavaletes de político logo iam se transformando em caricaturas monstruosas. Fitas coloridas amarradas às pilastras. Um pano branco enorme também. Alguém queria tomar uma cerveja e então nós descemos e compramos um engradado. A música tocava alto. Os serralheiros das poucas lojas do lugar  continuavam trabalhando. Um corredor escuro se transformou em espaço de projeção de graffiti a laser e um amigo amante de música eletrônica assumiu o papel de DJ.

Aos poucos, a tarde foi passando e a luz do sol foi entrando pelas frestas dos cobogós, alaranjando o que encontrasse pela frente. O dia terminou e de repente a Kréu Krio tinha que acabar. As pessoas foram embora e o que ficou por lá, ficou. Já estava escuro, nós estávamos exaustos e tínhamos que levar embora o que era emprestado. Quando saímos do Mercado Novo, uma chuva torrencial lavava a cidade. Pois aquela já não era mais a mesma cidade.

Por Luiz Navarro

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BH Está Aí Para Quem Quiser Ver

Por Pedro Morais*


Se você, como eu, mora em Belo Horizonte por opção e não pela falta dela, já deve também estar cansado de ouvir as velhas reclamações e ladainhas daqueles que sempre repetem que aqui não acontece nada, não há nada para se fazer, que não existe oferta de programação cultural, etc, etc. Uma vez, em viagem pela Europa, ouvi exatamente o mesmo discurso de uma dupla de jovens que moravam em Berlim (!!!). Meu avô, que era um sujeito muito cabeça-dura, mas de enorme lucidez, costumava dizer: “não adianta mudar de lugar, pois pouco tempo depois de lá estar, inevitavelmente você se depara com si mesmo”. O que ele queria dizer, creio eu, é que a rotina tende a criar (ou dar espaço) para insatisfações que não são fruto do meio, mas íntimas ou mesmo existenciais. Pergunte a estas mesmas pessoas se elas estiveram na última exposição no Museu da Pampulha ou no Palácio das Artes. Pergunte a elas se foram ao festival de Teatro ou à mostra de Cinema. Se foram à bienal de Graffiti, ao Kréu Krio, freqüentam a batalha de MC’s ou o quarteirão do Soul. Gostam de se mostrar indignadas, mas na verdade não estão mesmo interessadas. Mudam-se para São Paulo e continuam não comparecendo ao que lhes é oferecido. Ao menos assim não têm mais tempo de se lamentar, pois estão agora presas no trânsito ou sem ter quem os acompanhe. Não há tempo livre ou disposição para se encontrar com mais ninguém.

Oferta há, para quem quiser ver e para todos os gostos. Temos no calendário cultural da cidade vários shows, FITs, FIDs, INDIEs, e muito mais, num total de mais de 20 festivais somente na capital. E qual seria então a identidade cultural de Belo Horizonte? Como disse uma vez Marcelo Machado, “não existe aqui uma carência de identidade, ao contrário, tem-se um excesso delas”. Talvez resida aí um pouco da desarticulação das ações culturais na cidade. Fruto de tudo isto, vemos que BH muitas vezes não é capaz de manter aqui seu capital humano e cultural, o que a consolidaria definitivamente como uma cidade criativa, no conceito de Richard Florida. A partir do cacoete da insatisfação, muitos partem para outros Estados, principalmente o eixo Rio – São Paulo. Carecemos construir, além da manifestação em si, a discussão, a convergência e a cooperação como um caminho a ser trilhado. Afinal, a existência de tal diversidade e multiplicidade cultural é por si só uma forte identidade.

Não seria exagero dizer que temos aqui, a alguns quilômetros de BH, algo que pode ser tido como um dos mais importantes senão o maior conjunto de obras da arte contemporânea do mundo: Inhotim. A arte chamada contemporânea estabelece algumas condições que por um lado, atribuem a ela uma relevância que havia se desgastado na arte e por outro, a conduzem a um ponto mais distante do cotidiano das pessoas. Quem estaria disposto ou mesmo teria condições, por mais que compreenda e admire, de ter um Tunga ou um Cildo Meireles em sua casa? Se as artes visuais, nas suas evoluções e revoluções, ações e reações, alcançaram no período moderno uma grande amplitude de compreensão e aceitação social, a arte contemporânea se coloca de maneira distinta. A arte dita moderna encontrava como reação do público a suas expressões, muitas vezes o clichê do “meu sobrinho faz igual”. Já a arte contemporânea, declaradamente desinteressada do público, suscita nele uma incompreensão mais radical, do tipo: “Que diabos é isto?!?”. Nesse contexto, o interessado por arte tende a se sentir excluído, não pertencente ao contexto que gerou aquela expressão artística, não identificado com ela. Tudo certo, pois talvez seja mesmo o estado atônito e desconcertado produzido nas pessoas pelo mundo atual a principal força motriz da expressão destes artistas.

No entanto, justamente por isto, há espaço hoje para todas as formas de encarar a arte. E temos observado um novo fôlego por parte das artes, digamos, populares, na forma de uma revalorização da arte de rua, da ilustração, da gravura, da pintura. O que se tornou a arte contemporânea, de certo modo veio tirar grande peso dos ombros das formas mais convencionais (ou ancestrais) de expressão artística. E convenhamos que não há nada mais conveniente para a arte que a não-obrigatoriedade de ser ou de representar algo. A arte deve sim, ser interessada, mas a liberdade ganha aí não tem preço e é imensamente frutífera. A intenção pura e simples de expressão está sem dúvida na raiz da boa arte.

Nos últimos tempos, vemos surgir em Belo Horizonte alguns espaços que se posicionam num ponto onde até então não existia ninguém atuando. Estes espaços não poderiam ser classificados simplesmente como lojas, ou como galerias de arte, ou como ateliês, na concepção estrita que temos disto. Colocam-se para a cidade com o intuito de operar justamente na lacuna deixada pela rigidez destas configurações. Produzem e fomentam a produção artística e cultural, comercializam arte e produtos culturais, cada uma a seu modo particular, mas sem a afetação e esnobismo das galerias de “altas artes”, nem tampouco o desinteresse das lojas de decoração, onde se escolhe a peça pelo tom que mais combina com o sofá. Prezam também pela exclusividade, mas não a exclusividade ao estilo “Daslu”, fruto da inacessibilidade financeira imposta à maioria pelo valor do produto. Uma exclusividade de ponto de vista, de posicionamento, de identificação cultural, de liberdade criativa, de despretensão. Neste contexto se inserem, sem hierarquia de valor, as artes de rua, a fotografia, os objetos de desenho, o desenho em si, os brinquedos-arte, moda, música e estilo de vida. A Grampo Design, a Mini-Arte, o Coletivo MamaCadela e mais recentemente a Desvio, buscam operar justamente nestes limites, dispensando rótulos prontos. Surgidas de forma independente, procuram hoje estabelecer um modo mais livre de lidar com a arte, pura ou aplicada, tornando-a parte da vida cotidiana. Fazer por querer fazer, mostrar para que seja visto, vender para difundir, de forma simples e direta. Se você gosta de reclamar, continue na sua cantilena. Se você de fato não está interessado, é um direito seu. Mas se o que você deseja é ver as coisas acontecerem saiba que elas estão acontecendo. Venha participar, procure se informar, engrosse o coro, faça você mesmo.

* Pedro Morais é arquiteto e um dos idealizadores da Desvio, uma das galerias que apoia o Vendendo Peixe. Este texto foi publicado originalmente no blog da Desvio, em outubro de 2008, e permanece atual.

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De Kréu a Peixe: Crônica de uma Inesperada Evolução

Semanas… não – MESES de espera! Mas tá aí: Vendendo Peixe. Ainda lembro, quando o amigo João Perdigão me falou do Kréu Krio, que tinha acontecido em Agosto de 2008, e que eu perdi por apenas dois meses. Mudei para o Brasil em outubro de 2008 e no dia do evento Kréu Krio estava em alguma praia perto de Lisboa, descongelando de 4 anos passados na Inglaterra.

Perdi o Kréu Krio. Só vi as fotos do João, do Luiz e da Isadora, que produziram o evento daquela vez e continuaram naquela fissura de fazer de novo. Deu muita vontade de participar, veio até uma saudadezinha de eventos semelhantes, menos temporários mas autônomos também, que tomam conta de tantos espaços abandonados por toda a Londres, longe dos centros higienizados para turista ver.

Conheci o Mercado Novo um dia em busca da loja grátis. Que lugar fantástico. A loja estava fechada e fui circular pelos corredores ladeados de lojas abandonadas. Aquela luz incrível, aquele espaço imponente e já saí de lá com aquele vírus que dá em tanta gente que visita o lugar. Mil idéias fervilhando de possibilidades criativas para um terceiro andar perdido no centro de BH. E claro: um outro Kréu Krio.

Mas alguém, quem já não sei, não gostava do nome. João contou que no Kréu Krio não foi autorizada pintura nas paredes. Mas houve. Um peixe na parede do banheiro que o síndico, apesar da proibição, adorou. Era preciso vender aquele peixe de novo ao síndico para que o evento se realizasse. E assim nasceu a idéia: Vendendo Peixe.

A partir daí a coisa foi. Bem ao ritmo brasileiro, que de frenético só tem o samba… Fomos conversando, o tempo foi passando, um dia reunimos, o tempo continuou passando, adiamos duas vezes, e de repente um dia – já não sei como – a coisa arrancou! Apareceu gente de todo o lado na pilha de fazer o evento. Veio o pessoal do Mixsórdia, veio o Licio, e saiu Isadora, que, por motivos de trabalho, está ausente de BH. Mas tá com a gente e a gente tem saudades!

De conversa em conversa, e após uma reunião séria, com comidinhas deliciosas amavelmente oferecidas pela mãe do Daniel, resolveu-se tudo. Divididas as tarefas, aprovado o Urubois, abriram-se as cervejas e as garrafinhas de Pratiana e fomos pra rua, encontrar os semelhantes e espalhar a notícia.

Ta aí a resposta. Um blog a bombar e um evento que vai dar muito que falar!

Manu Tenreiro

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